Junho 2010

Alguns poucos morcegos

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Do que se vê da minha janela, é nada. O breu da madrugada não me deixa ver somente além do que eu já sei: uma janela de vizinho anônimo , carros preguiçosamente pelos cantos, os ralos talhos de grama nascidos por entre pedras que eu sei e sempre soube que lá estiveram e vão estar, porque é assim que é; como além do que sei, também não me deixa ver aquilo que eu não sei: morcegos que voam levando alguns poucos insones pensamentos. Que cantam alertando uns aos outros “peguei algum que valha a pena por este pernoite”. Meu sonho era que um desses voadores cantarolassem um dos muitos meus para os outros . Além do breu, o que diferencia agora da manhã é o ar, gelado e extremamente solitário. Parece que, no mesmo ar que voam os pensamentos noturnos, silenciosos e soturnos, voa nas suas mais variadas densidades, a solidão. Essa solidão que eu daqui, troco com você daí ,pelos ares de suspense que só a madrugada de cidade tem. Nem um vento vem essa hora para varrer esse sentimento para um outro. Solidão que emana intuitivamente de todos os acordados e que fazem esse envio e recepção de pensamentos e da mesma solidão. O ar gelado me convida para me afastar. Dou dois tímidos passos para trás adentro, e , sem a pressa que a noite nos inspira, tranco a janela. Solidão por solidão, talvez já baste a minha. Sei o que tem no quarto, apesar das luzes apagadas e o ambiente aqui ser exatamente um retrato do lá de fora, sem tirar nem por. Morcegos , pensamentos, ar gelado, somente solidão. Somente a minha solidão nesse quarto. Minha iris, já tolhida de esperanças pela vida, tenta se adaptar conforme a escuridão, e só a título de confirmação, confirmo e sento na minha escrivaninha. Passo os dedos lentamente pelos sulcos que o tempo e o sonho meu talharam. Eu amo você, eu a amo, eu e você, você e eu são as únicas palavras marcadas à faca que fazem sentido nesse velho móvel em meio a muitas poesias desencontradas. Queria fazer sonetos. Sonetos pra você. Lembro rindo. Olho a volta e choro. Meus olhos fechados então me são mais alegres e quando os abro já estou deslizando as costas maciamente pelas paredes. O que se vê nelas, não fogem muito ao padrão do que se pode ver na escrivaninha e em todos os móveis da casa. Pinturas de amor e retratos teus e meus que, já foram mais coloridos. Se saísse do quarto, coisa que tirando as necessidades, eu raramente fazia, saberia que os único sinais de vida da casa, estavam naquele quarto, por mais fúnebre que ele estivesse, convidativo à solidão, com um céu negro e nublado de pensamentos e mais alguns poucos amigos morcegos, os quais se viam no direito de ali entrar e fazer morada, que essa hora da noite , por aqui cantarolavam já belíssimas e carregadas canções. Minhas mãos seguem o corpo nesse rumo até o chão, até que, no rodapé encontro uma janela. Dessa eu não sabia, nunca estivera lá, e o breu, finalmente me fizera ver algo novo. O material da janela, ou janelinha, rigorosamente era o mesmo dos móveis: uma madeira envelhecida e cheio de sulcos propositais e desconexos feitos por mim, parecia. Nunca antes tinha mexido ali. Resolvi abrir. Descobri que a janela dava pra lugar algum. Na verdade parecia uma caixa preta e oca. Provavelmente um anexo do vazio do meu quarto. Agora, o corpo todo mal distribuído por cima de si próprio, já estava ao chão , gélido como o ar. Como tudo que é sem vida. Como tudo que é sem você aqui. Comecei a me ver diferente. Meus pés nunca foram tão gordos e assim como eu, estavam engordando mais e mais. Não me reconhecia mais. Não que fisicamente. Não tinha nem espelho tampouco luz pra visualizar esse rosto envergonhado por agora. A única medida de tempo que tinha era o comprimento da barba. Não queria brindar à luz do sol nunca mais. Aquele brilho me lembrara que esse quarto , hoje vazio, já tinha sido, outrora por estes raios reluzentes e brilhosos, que iluminavam e coloriam seus longos cabelos repousados trabalhosamente pelo acaso ao chão, palco das nossas danças, andanças em círculos, cânticos, mãos hora dadas, hora batendo palmas. E o som? Ah, o som era maravilhoso. Ecoava pela casa toda mostrando que nós éramos felizes. Muitas vezes aqui, pés escorados na janela até doer, deixávamos o sol participar como coadjuvante do nosso momento. Eu , como muitos, jurei o que não podia cumprir, jurei que seria eterno. Hoje , deitado aqui, com a sorte que os cachos que faço na barba me fazem esquecer, por alguns minutos felizes, que um dia ,quem estava deitado do meu lado, era você. E você ,onde está? No anexo do meu quarto, por dentro daquela janelinha, muito provavelmente. Já era em tempo de cairmos na real e notar que aquela decisão não fizera bem nem à mim e nem à você. O tempo sozinho me mostrara que, apesar de muito indesejável, a solidão é o mais fiel dos sentimentos.

Fundação Quizumba

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A rua que ele sobe se chama Hadock Lobo. o Destino, o colégio Nacional, onde viveu e deixou que outros vivessem seus melhores momentos até aqui. A cada passo a lembrança. Passando e rememorando por cada parede, cada árvore, sentia o cheiro de cada momento que riu, riu muito, riu alto, riu dos outros, riram dele, brigou, apanhou e as inúmeras vezes em que se repetiu o fatídico sentimento: "AGORA FU#$%@!!!".

O portal do colégio, templo de alegria, fica cada vez mais próximo.

É ele que tá vindo! Ele voltou! Cara você não sabe quem tá chegando aí.

Os alunos se amontoam pelas grades e uns pelos outros pra checar a veracidade da história. Os professores relembram momentos de embaraço que o viajante, agora retornado, já os tinha proporcionado.

É. Aquele que por vezes causou estragos fisicos à instituição e ao emocional dos seus colegas de classe, depois de duas séries em colégios distantes dali, não se adaptou. Voltou. Talvez por sua excentricidade e hábitos peculiares como cantar alto em sala e só respeitar os indignos de respeito. Queria ser um deles, algum vagabundo errante pela rua.

Por fora o mesmo uniforme que vestira outrora. A mesma cara de sonso safado. As mesmas cicatrizes que adiquiriu em brigas na rua do colégio. Pasmem: o mesmo tênis.

Já por dentro....

A vontade de chegar atrasado para chamar a atenção; a arte da quizumba; de importunar; o inconveniente quer porque quer tacar fogo no cabelo da coleguinha; pedir pizza no nome da inspetora; tomar tocos e tocos de quem ele nunca viu; fazer guerrinha de comida; quizumbar; quizumbar; quizumbar...

Repetir não é uma opção, é um trajeto. Não se sabe se até agosto já vimos a terceira guerra mundial ou outro fato apocalíptico que deixariam os judeus enciumados. O fato é que , como em o exterminador do futuro, "i'll be back". E ele está.

Quem nunca teve vontade de voltar e ser criança, nem que fosse por um tempo de matemática?

Meu caro Dunga

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Não ganhe essa copa.

Quem lhe faz esse encarecido pedido é um brasileiro, rubro-negro, carioca e suburbano. Como vê, estou acostumado com churrascos, bagunças, amigos, horários não respeitados e improvisos. Essa seleção é muito certinha Dunga.

Carisma 0!

O que meu filho vai pensar do futebol se ganha a copa uma seleção brasileira que joga mais feio e abdicando mais o ataque do que a de 94?

Pelo menos a sele de Parreira, além de ser melhor convocada e escalada , atacava com os dois laterais. E nós hoje? Quem é o nosso lateral esquerdo afinal?

Meu filho, pobre filho, talvez não diga nada. Eu não tenho filhos. Mas o que pensará a próxima geração que vai entender que o belo futebol é parecido com o da Hungria de 54 que encantava Armando Nogueira? Ou o Brasil de 70 desfilando em campo Pelé, Rivelino, Tostão, Gérson e que tinha no banco o já velho lobo Zagallo com seu 4-4-2 ou 4-3-3? Ou o Carrossel Holandês Dunga, esse você deve gostar? Quê? Não gosta? Quer que eu veja o Felipe Melo e Gilberto Silva em campo? Ah, já entendi. Não gosta. Nem vou falar de 82 então...

Você, que de gozado só tem o nome, deve falar que muitas dessas seleções jogaram bem mas não ganharam. Ah sim, agora jogar mal é garantia de vitória? Jogar feio e burocraticamente nos deixa mais perto da taça? Certo?

Meu caro Dunga...

Torço sim! Para o Maradona ganhar a copa. Não sei se é irresponsabilidade ou coragem ele montar o time como vem montando. Mas é que os hermanos, do meio pra frente, em valores individuais, nos dão um banho. Talvez nossos jogadores que você nem sequer chamou fizessem uma frente. Alguns deles: Ronaldinho Gaúcho, Hernanes, Ganso, Neymar e Adriano. Belos jogadores, não? Desculpe a pergunta. Esqueci da sua veia norueguesa. Você é brasileiro Dunga?

Torço pra um técnico meia tigela, como você, ganhar, pra nos lembrar que vocês, 'professores', são importantes sim, porém mais perdem do que ganham jogo, não são isso tudo.

Essa prepotência um dia acaba!

Quem sabe com Maradona pelado no obelisco ou, tomara Deus que não, você xingando a imprensa chegando com a taça no Brasil.

607 - Negreiro

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"Mambo number five" é o nome da música. Além de perguntar qual o nome e por quê ele ainda não trocou esse depertador, perguntara se tinha ainda 6,7 minutinhos até ter que levantar da cama norteando a via crucis cotidiana: banheiro,dentes,água gelada,tchau mãe, tchau pai,portão empenado e, quando sem sorte, dar de cara com outros vizinhos morimbundos que, como ele, acordam antes do galo para trabalhar e afins.
Pronto. Como é doce viver. O ponto? Cheio. Nem 1/5 do quão cheio estará o ônibus. Seja aquilo um transporte público ou um navio negreiro.
Sinal. O motorista,devidamente trajado com óculos escuros na cabeça, calça levantada até o joelho e um papelão servindo de quebra-vento, parece fazer questão de nunca parar em frente ou próximo ao passageiro.Nem sempre é o mesmo.

O nome do martírio? 607.

Entra no ônibus e,se não fosse calejado e velho de guerra esperaria achar um lugar preterido. Como não o é, sabe ser mais fácil ganhar na loteria do que chegar na roleta sem provar do suor de sofredores que começaram a morrer alguns pontos antes.
Passa pela roleta e toda a paciência de monje, agora, não passa de uma longínqua lembrança. Nem confere o troco.
Primeiro obstáculo: algum malandro que insiste em ficar na roleta. O senhor deixa eu passar? Meio dormido, meio acordado e meio muito bravo, o homem de 3 metades e que de senhor respeitoso não tem nada só dá passagem conforme o balanço do negreiro. Perddão, 607.
Segundo obstáculo: a trabalhadora. A senhora, alta, amorenada e com uma enorme bolsa que carrega sabe-lá-Deus-o-quê tenta dar passagem para o jovem estudante não sem antes pensar -Esse é daqueles que quando olham aquelas velhinhas forjam estar dormindo, não que as velhinhas não sejam chatas, muito pelo contrário mas...A gentileza de ceder um espaço pro garoto nem que seja respirar é tanto vã quanto nula.
Aliás, o ar aqui,sujo e fétido, é rarefeito.Nem isso consegue ser. Por bem antes o fosse.A mistura é de oxigênio, espirro, amônia, enxofre e...Leite de rosas???
Muito dessa culpa se dá ao terceiro gladiador a ser batido. A arena fede, talvez, eu disse:talvez, por causa desse proletariado. Beija-flor convicto, olhos avermelhados não enganam de que bebeu até tarde ontem. O bigode lembra uma cortina negra e no suvaco, ah se aquele suvaco falasse...Como ele não fala,fede. E muito.
Nem a tentativa de alguma pasta milagrosa caseira,casca de banana, limão, quiçá o leite de rosas ,que ,em menos de dez minutos de sair de casa já escorre, contiveram o ímpeto e a vocação ao fedor. Tá explicado o misterioso fedor da arena.
As mãos apalpam o ferro outrora apalpados por zilhares de vítimas como ele. Árdua tarefa é achar algum canto. Se apoia no vizinho da direita,no da esquerda,no banco, e nem uma mísera alma se oferece pra levar a mochila,vazia e de jeans, rasgada do nosso personagem.
Pela janela os mesmos lugares, as mesmas pixações. Pera aí;aquela cor de grade era diferente...Não, não era; não rola. Não consegue mais se enganar. O ponto de descida está longe. O local que ele atesta sua bravura é só no outro bairro, mas infelizmente, nem desfrutou de todo o sofrer e já tem que ir embora. É retomada a odisséia : passa pelo primeiro,segundo, por dentro do terceiro, espera a moça levantar(puxa vida, se ela tivesse levantado antes tinha sentado...)o quarto é passado. O quinto, parece ser primo do beija-flor. Pelo menos carregam no suvaco o mesmo leite de rosas e na retaguarda o aroma do inferno. Tenta, sufocado, a ultrapassagem. Como? Não tem como.
O ônibus dá uma freada brusca, pra não perder o costume. Ninguém cai pelo simples fato de não ter como. A porta abre. A esperança de ter esperança, de um mundo melhor existe. A saudade do cheiro da rua, do caminhao que arrasa com o ambiente existe. A lembrança do frio de 32 gruas que remete à bangu também existe. Há luz no fim do túnel. Há tmabém o último guardião da liberdade: o estudande de colégio público que teima em ficar na porta.
Ele finge que sai,não-sai,sai,não-sai,sai e não saiu! O motorista coloca o negreiro em movimento e o gemido do sofredor é ouvido: "ô piloto". E o piloto? O piloto inexplicavelmente pára, reabre a porta. Ele sai. Respira. Olha para um lado. O outro. A escola é em frente ao ponto. O ar de vencedor é notável; afinal, veio de 607 pela manhã. Entra na porta da escola e finge esquecer que as notas são baixíssimas,esquecer o trabalho que valia dez e ele não fez, esquecer que, fatalmente vai figurar nas recuperações,e a cueca. A cueca? A cueca tá apertada. Igual o 607.



Um alento à Leandro Leleco.

O dia D

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Sai detrás das cortinas, serenamente se acomoda num palanque improvisado entrando no raio de visão de mais de um milhão de pessoas, sentindo a maresia, um senhor barbudo, trajado com uma longa vestimenta branca, assim como sua barba e seus cabelos. Voz grossa, a aparência sintetiza o respeito. Voz que , apesar da difícil compreensão pelos transeuntes alheios, mais parecia grego, transmitia em ondas toda a autoridade . Autoridade essa inundando toda praia e principalmente carros protagonistas do caótico trânsito à beira-mar.

O dia, era d. O dia d

Meus amigos e amigas, fiéis à razão, dizia o preletor, à democracia e aos filósofos tidos como enamorados de mancebos, deixemos de filosofar e abramos o livro em I Sócrates 3:15:
"Só sei que nada sei." Razão Irmão! E a multidão alvoraçada repetia em coro: Razão Irmão!

Enquanto discorria sobre a passagem, milhares de escrivãos passavam entre a enfileirada multidão, todos com a fisionomia e gestual semelhantes a de "
O Pensador" de Rodin, trazendo salvas nas mãos , recolhendo donativos e mais donativos.Nos olhos de todos transparecia a certeza , uma certeza patriótica e quase iluminsita de que estariam ajudando.

A multidão terminaria a cerimônia logo após a retirada do homem com estirpe de longínquos anos anteriores até a Cristo, com mais alguns momentos de silêncio sepulcral em reflexão. Saíam com a certeza de que a oferta ia de encontro ao sonho utópico. O de salvar a Grécia da crise.

P.S.: qualquer semelhança com práticas ou eventos da I.U.R.D. não serão mais que mera coincidência.