Março 2012

Dinheiro e seguidores de Cristo

0 comentários
Quantos aqui já leram, sofreram ou participaram da corrente que assola todos os cristãos: a má interpretação social sobre o sexo?

Não raras vezes casais cristãos se encontram às avessas com esse tema que, biblicamente, se resume e se resolve de forma simples. Os conselhos encontrados nas epístolas do apóstolo Paulo, que foram responsáveis por dar 'limites' ao comportamento da classe, diz para que você seja homem de uma só mulher, que sexo só depois do casamento (uma vez que, segundo sua fé, você é templo do Espírito Santo, logo não há condições para ficar o praticando com qualquer pessoa que não tenha aliança com você).

Apesar de tudo muito claro, as complicações começam nesse nicho mesmo é no casamento; intrigas e até "greves" por parte de um dos aliançados estão na lista dos problemas. Grande parte dessa ideia generalizada em todos os núcleos religiosos ocidentais pode ser considerada fruto de uma ideia, lançada e consolidada pelo teológo Agostinho, ferrenho em sua luta pela dimunuição da importância do sexo.

Pois então, encontrada a razão, ou pelo menos a gênese dela, do porquê o sexo é um tabu mal feito nesse meio religioso, vale dizer que o mesmo acontece com a questão financeira.

Historicamente, Deus sempre foi um Senhor alheio à sua condição financeira no ato da decisão de estabelecer ou não relacionamento com a humanidade, o qual nunca conferiu o número de camelos ou a sua conta bancária para, na religião, ter intimidade com seus seguidores. Historicamente, também, é fato que a maioria daqueles que se aproximavam de Deus na torá (o pentateuco = os cinco primeiros livros da bíblia) tinham um relacionamento  muito íntimo com o grande número de posses ou o poder aquisitivo. Entre os exemplos estão Abraão — o qual, aliás, enriqueceu muito mais depois que veio a ter um relacionamento com o Eu Sou — Moisés, que apesar de ter vindo de berço pobre foi adotado posteriormente pela família do faraó e passou a viver nos palácios; e José, que de escravo se tornou um dos maiorais da maior potência econômica da época.

Os judeus, diferentemente de católicos e protestantes, dão um banho no tratamento homem x dinheiro.

Contudo, as palavras do Messias e o seu relacionamento com as finanças tem sido mal interpretadas.

Os franciscanos através da pregação de sua cultura de desapego à bens materiais e uma possível aproximação da pobreza como relatório de santidade, fizeram, tal qual Agostinho: novas bases para o pensamento de um determinado assunto, nesse caso, o dinheiro.

A partir de então, possivelmente, houve a oportunidade da instalação de uma nova doutrina no inconsciente coletivo dos cristãos. O dogma que assolou essa religião durante anos, proveniente dessa cultura que associa pobreza à santidade não é verdadeiro nem recíproco. Não se pode medir integridade religiosa de ninguém por ele ser rico. Riqueza no cristianismo não é sinônimo de pecar. 

Proveniente dessas ideias, muito pode se explicar sobre o julgamento negativo de alguns hoje em dia quando avistam alguma construção luxuosa ou quando intitulam algum sacerdote de ladrão. A questão ou o porquê disso algumas vezes vai muito além de um desvio moral ou ético, os próprios condenadores estão arraigados em uma base montada na cultura humanista, o que é extremamente lamentável.

Segundo Texto

0 comentários
Após a repercussão do texto " O que (o escritor da) Esquerda tem que aprender com os evangélicos" e do ótimo e proveitoso feedback em relação ao tema, tive a honra e o prazer de receber opiniões e conselhos sobre conteúdo e também forma do último artigo. Uma dessas pessoas, um referencial profissional para mim, Stephen Kanitz, sugeriu-me que repartisse o original em quatro, devido ao extenso tema. Desafio aceito, o primeiro texto retirado do original você pode conferir abaixo, agora vamos falar um pouco mais sobre as características da religião que mais cresce no país:  protestantismo.

João do Rio foi uma famoso jornalista brasileiro, carioca, nascido em 1881 que entre janeiro e março de 1904 decidiu colher informações sobre a religiosidade do Rio de Janeiro e as colocou em seu livro de reportagens intitulado "As religiões do Rio".Nele o repórter conta a história da primeira igreja evangélica a chegar na cidade, chamada Igreja Fluminense, que é datada de 1858


Junto com essa igreja pode-se acreditar que chegou ao Rio de Janeiro e anteriormente ao país um novo conceito religioso, ou pelo menos o embrião de uma transformação que não se restringe somente ao campo da religião.

Alguns sociólogos afirmam que a sociedade se baseia sobre pilares e, entre eles estão a família, a justiça e a religiosidade.

Quando se afirma que o protestantismo à luz de Cristo , apesar de respeitar hierarquias e construções sociais, não se contenta em agir somente na esfera religiosa, cria-se a semelhança, paradoxalmente e inversamente dele ao comunismo, uma vez que esse em seu mais avançado estágio parece suprimir o indivíduo, negar a possibilidade de sonhos e ascensão social, coloca o estado acima de qualquer religião e intenciona ir além de um sistema social almejando se tornar uma filosofia de vida — algo muito semelhante ao que o capitalismo pode sugerir atualmente.

Com o cristianismo puro e simples (o qual C.S. Lewis tem um livro sobre) acontece o mesmo. Suas atitudes de caridade e frutos dessa fé necessitam, com respeito, invadir outras áreas. Logo, então, pode-se acreditar que a primeira igreja pode ter sido uma tímida, contudo poderosa semente de mudança que foi plantada no estado, uma vez que seu membros e fiéis são ensinados a fazer da religião uma ideologia e uma espécia de "chamado".

Politicamente, as diferenças por conta de atitudes e medo de retaliações populares religiosas começam a acontecer naturalmente. Em qualquer país com regime democrático a maior classe está apta a receber, senão a maior, grande parte da atenção e investimento social. Recentemente candidatos das mais variadas esferas têm feito desse nicho seu curral eleitoreiro e conseguiram galgar novos territórios, a nomeação de Crivella para o Ministério da Pesca recentemente pela presidente Dilma é acusada de ser em virtude do crescimento populacional evangélico.

Contudo esses acontecimentos, apesar de serem bem claros, não são fatos consumados e provados. A verdade de fato e de direito atualmente é que a forma como se desdobra uma denominação hoje é fascinante.
Toda igreja que se esmera nas atitudes bíblicas e as repete dá "uma aula" para muitos líderes e CEOs.


É interessantíssimo a capacidade de recrutamento para o ofício de dentro das igrejas, assim como a clara e imediata noção de acolhimento que cada uma delas oferece, igualmente com o importante discurso e prática que une todos ali debaixo de um só propósito. Se cria uma comunidade à parte, que, se for levada a séria, 2000 anos depois de o Messias ter deixados seus ensinamento e diretrizes, é muito mais eficiente ao chegar próximo do que qualquer comunidade tentou ao se tornar uma "sociedade alternativa"

Vale ressaltar a pequena curiosidade que acontece hoje que é a do número absurdo de músicos profissionais que transitam pelo brasil afora acompanhado artistas renomados e multimilionários, os quais firmaram seus primeiros passos em igrejas pentecostais ou neo-pentecostais. Mas a formação desses músicos, o porquê da troca de "altar" e "palco" e o êxodo deles das igrejas não encaixa no tema proposto.


Um dos exemplos dessa grande movimentação 'espiritual' atual brasileira é a ferramenta da visão celular no modelo dos 12, Iniciada no Brasil por volta desse novo século. Em pouco mais de 10 anos atuando em território nacional, as atividades que fazem parte desse projeto já reinstauraram características importantes desse povo que segue a bíblia, tais como 'honrar o líder", "seguir o modelo dos 12 adotado por Cristo", a implantação de "células" que envangelizam em quase todo território nacional e principalmente a ideia de que cada membro é um líder e cada casa uma potencial igreja.

O primeiro texto insinuava o exemplo que a esquerda nacional deveria seguir dos evangélicos. E o exemplo tem sido esse, uma paixão pelo sacerdócio e o trabalho de "formiguinha" e de muita paciência e estratégia por parte desses líderes. Se tudo continaur como está, em breve o país se tornará, mais do que já é, uma potência evangélica mundial tendo suas decisões a níveis institucionais sendo influenciadas por essa classe que começa a se tornar poderosa.

A luta pela classe C

0 comentários
Após a repercussão do texto abaixo e do ótimo e proveitoso feedback em relação ao tema, tive a honra e o prazer de receber opiniões e conselhos sobre conteúdo e também forma do último artigo. Uma dessas pessoas, um referencial profissional para mim, Stephen Kanitz, sugeriu-me que repartisse o artigo em quatro, devido ao extenso tema. Desafio aceito, comecemos hoje pelo final, a minha reflexão sobre a Teologia da Libertação.

Tal teologia tem no Brasil seus ícones mais conhecidos: Leonardo Boff e Frei Betto. Sobre tal corrente pode-se acreditar que ela nasce no começo dos anos 60, ainda como "cristianismo da libertação", quando a JUC (Juventude Universitária Católica) se alimentava da cultura católica francesa progressista que propunha, pelo cristianismo, uma radical transformação social e era encabeçada por Emannuel Mounier e padre Lebret.

Esse embrião de movimento fomenta e se estende aos demais países da América Latina tomando para si engajamentos culturais, políticos e sociais, sempre atrelados ao cristianismo. Nos anos 70 nasce então a "Teologia da libertação".

Leonardo Boff e Frei Betto, tal qual eram, ainda são extremamente atuantes em sua ideologia nos dias de hoje(Boff por suas convicções chega a ser excomungado pelo Papa na década de 80 e Frei Betto, além de assessor especial de Lula quando presidente no país, fez assessoria de outros organismos socialistas Estado-Igreja também). Resumindo a teoria e a função da Teoria da Libertação seria "optar pela causa dos pobres".

A luta pela massa, pela maioria que é tida como mais manipulável por alguns estudioso não é nova, e já se entendeu que para se estabelecer novos paradigmas, não há base maior do que a classe C, os pobres. Como diria Clinton, segundo o jornalista Paulo Henrique Amorim, quando soube que Lula havia sido, enfim, eleito presidente: "É sempre assim, se elege pelos pobres mas se governa pelos ricos".

Acontece que, exatamente na década de 80, o crescimento religioso que o país começa a enfrentar é outro. A máxima "comunicação é o que se entende e não o que se fala" se fez verdadeira para a nova Teologia.

Ela que deveria ser do e para os pobres é substituída ligeiramente pelo protestantismo nas ruas das cidades nacionais.

Com uma linguagem mais simples e mais direta — uma vez que a formação de pastores em tal época e aqui era diferente da formação de padres, logo a semelhança entre locutor e ouvinte sendo maior, maior também a receptividade — as igrejas evangélicas das mais variadas denominações, que haviam chegado no país somente no século anterior, tomam a frente, assumem seu posto e seu legado no lugar de Boff e companhia.

Em 1960, a classe se resumia a somente 4% da população. A população cresce e a porcentagem de fiés também; hoje cerca de 20% dos brasileiros se reúnem semanalmente em cultos. O país é uma potência e visto como o celeiro das atividades não só nas Américas como no mundo. Não raramente palestrantes e pregadores de expressão nacionais são convidados para ir para os quatro cantos do mundo multiplicar o know how e o que tem acontecido por aqui.

Tendo a distância entre líder e público diluída pelas semelhanças de origem e história pessoais, outro fato que coopera para o crescimento dessas igrejas sobre o público alvo que seria na nova Teologia católica é também o fato de que novas denominações continuam a surgir ao longo do país buscando e diminuindo a margem de pessoas que não se enquadrariam por conta de características. Hoje, existem formas e expressões de evangelho para todos: surfistas, empresários, desempregados e empregadas.

O fato é que a igreja evangélica sem abrir mão dos princípios se adéqua as novas realidades numa velocidade razoável, enquanto a igreja católica continua afastando de si pessoas de vanguarda como Boff e Betto, que, estando do lado do Papa, seriam responsáveis por uma situação aqui, se não muito, pelo menos um pouco diferente da atual.

Hoje, não só no Brasil, a igreja católica enfrenta o que chamam de crise, e se continuar do jeito que está, as igrejas ligadas ao Vaticano vão ficar mais vazias do que o Egito na época do êxodo.

O que (o escritor da) Esquerda tem que aprender com os evangélicos

1 comentários
Recentemente foi lançado ao público por meio de alguns blogs um artigo que, inteligentemente, discute a tríade a princípio inseparável: economia-política-religião.

O artigo traz reflexões importantes porém peca em algo que os da própria corrente evangélica/pentecostal/neo-pentecostal pecam: a segregação.

O escritor acusa algumas denominações com a do missionário R.R. Soares ou a Universal do Bispo Macedo de produzirem cultos em escala da broadway, insinuando que, por conta disso, tradições de simplicidade cristã fiquem em segundo plano (com muita boa vontade) no cotidiano daquela comunidade.

Não advogo a favor de missionário ou bispo nenhum, pelo contrário, pessoalmente até tenho discordância com a forma que lidam com o evangelho e essa forma política , contudo, como disse anteriormente, a crise do protestantismo hoje no Brasil é criada pelos próprios evangélicos.

Não raras vezes em conversas comuns você irá ver entre eles alegações de que militantes da causa que pertencem à outra denominação são errados ou o pior, pelo simples fato da comunidade em debate ter crescido, ter se tornado uma gigante em influência e abrangência, já se coloca o rótulo de vendida.

A revista Época, ou Isso é (não me lembro no momento) deu a capa de uma de suas edições do ano passado falando sobre o novo crescimento do protestantismo à margem dos evangélicos. Líderes como Caio Fábio e Carlos Bregantim estão nesse contexto uma vez que incitam essas pequenas reuniões em fundos de quintais ou ex-lojas comerciais (Em tempo, os neo-pentecostais do textos e esses do conteúdo da matéria dessa revista são de correntes completamente diferente se assimilando somente na pseudo simplicidade do pouco número de membros ou da pequenez da congregação).

O fato é que, quando qualquer líder ou seguidor religioso do cristianismo ocidental protestante levanta sua bandeira contra qualquer denominação que apareça na TV ou que por ter ganho notoriedade por suas próprias condições, ele cai numa armadilha social muito comum, muito arisca e muito arriscada, que começou na Escola de Frankfurt, na Alemanha.

Esses alemães, muito doidos, muito à frente, de vanguarda e geniais, tinham uma ideologia que no fim das contas poderia se resumir grosseiramente a seguinte frase "se faz sucesso, não é bom."

E é isso que acontece atualmente. Qualquer líder religioso/ espiritual é julgado primeiramente pela visibilidade que tem; se a possui muito, um certo pre´-conceito já se instala na interpretação de suas palavras e associar este homem ou mulher à simplicidade, graça, humildade e integridade parece coisa quase impossível.

Como se simplicidade fosse atributo excludente de grandeza e graça de realeza.

O dogma que assolou essa religião durante anos, proveniente da cultura dos franciscanos, que assossiava pobreza à santidade não é verdadeiro nem recíproco: riqueza não é sinônimo de pecado!

O texto se encontra abaixo, essas são algumas pequenas reflexões que eu espero que nos faça pensar e rever nossas atitudes de interpretação.

A teologia da libertação perdeu seu espaço para os evangélicos muito por causa disso...

Até breve.

“As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos 

então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas. 
O institnto de outra vida as conduz sem dificuldades 
ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos 
e às consolações da fé.”
Alexis de Tocqueville, “A Democracia na América” (1830), p. 220. 
Publicado originalmente no sensho
No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.
Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.
O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.
________________________________________________O crescimento dos evangélicos não é um milagre,
é resultado de um trabalho incansável
de aproximação com o povo
Desde Lutero, a fé como um ato de resistência (Life of Martin Luther and and the Heros of Reformation, litografia, 1874)
O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.
O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.
Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.
________________________________________________A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos,
nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico
George Whitefield (1714-1770) pregando nas colônias britânicas
Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.
Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.
Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos.  A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.
dica da Isabel Dias Heringer